Quilombo do Catucá - Camaragibe/PE
Quilombo do Catucá - Camaragibe/PE

O Quilombo do Catucá está localizado ao norte da cidade de Recife/PE. Região símbolo da resistência negra contra a escravidão, o Quilombo do Catucá abrigou em maio de 2017 um encontro, uma Roda de escutatória para fomentar o debate sobre Redes de Formação e Educação Popular.

A Roda do Catucá, foi uma reunião de educadores, mestres, acadêmicos, gestores e profissionais da educação na intenção de compartilhar experiências em educação popular. O texto a seguir visa sintetizar as temáticas tratadas nessa roda escutatória e dialogar com as práticas das Redes de Formação e a Educação Popular.

“Não sabemos se tudo o que estamos dizendo aqui vai ser aplicado, mas já esta sendo aplicado mesmo antes da gente ter noção de que já esta sendo aplicado, porque o nosso viver é essa aplicação, é revolução, somos revolucionários por essência”. Deybson Henrique

As reflexões de educação e cultura nessa roda de escutatória além de tangenciarem os conceitos de território, educação, cultura, também tangenciam os conceitos de memória e identidade. Os sujeitos participantes dessa roda trouxeram para o centro da conversa o seu lugar na história, suas raízes individuais e coletivas, seus saberes, seus olhares, sentimentos, reflexões e pontos de vista, suas historias narrativas.
 
Em vistas de definir diretrizes a partir das reflexões criticas produzida nessa roda de escutatória podemos destacar a importância da valorização humana, o respeito a integralidade dos sujeitos na sua totalidade, os seus saberes, as suas diversidades culturais, que o trabalho da rede de formação seja dialógica, emancipatória, crítica, ética, sensível, que valorize a construção coletiva, incentive e estimule a pesquisa, criação, produção e mediação. Podemos organizar essas diretrizes a partir dos princípios da educação popular:
 
- Valorização do ser humano na totalidade;
- Dialogicidade;
- Interculturalidade;
- Produção Coletiva de Conhecimentos;
- Valorização e respeito aos diversos saberes;

A rede de formação deve estar articulada a um projeto de emancipação humana, enraizada na cultura, no processo que faz homens e mulheres responsáveis e livres, capazes de refletir sobre suas ações, de cooperar, de relacionar-se eticamente e estabelecer relações de aprendizagens uns com os outros, valorizando e respeitando os diversos saberes. Esse processo de humanização entende que as pessoas se educam e se humanizam construindo processos identitários, pelo reconhecimento e pelas interações entre suas diferenças.
 
Partindo desse pressuposto, compreendemos que a rede de formação deve estar fundamentada em uma intencionalidade de construir um novo projeto de sociedade, onde os sujeitos envolvidos nos processos formativos sejam capazes de assumirem-se como protagonistas das possíveis mudanças sociais necessárias para a construção de resistência à exploração e subordinação. Estes estarão, assim, se construindo como sujeitos políticos que vão se humanizando (superando a simples aderência ao mundo, conforme Freire) no decorrer de sua existência, através de suas experiências individuais e ao participarem de coletivos sociais.
 
Acreditamos que os processos educativos, orientados por princípios da Educação Popular, sejam os escolares e não-escolares articulam-se a um projeto de emancipação humana, no qual os sujeitos envolvidos possam se sentir culturalmente situados, livres para criar, experimentar, e capazes de refletir sobre o “seu lugar no mundo” e ainda cooperar; relacionar-se eticamente e estabelecer relações de aprendizagens uns com os outros. Este processo de emancipação poderá levá-los a se constituirem em sujeitos coletivos capazes de desconstruir a concepção uniformizadora produzida pela educação neoliberal, que reproduz preconceitos e oculta as desigualdades; e a constituir-se como ser humano aprendendo com as culturas que constituem e atravessam o seu contexto social.
 
Compreendemos, portanto, que essa rede de formação está alicerçada em uma formação em processo, capaz de articular as dimensões pedagógico-metodológicas da ação formativa, com as dimensões investigativa e ético-política. Sendo assim, podemos organizar as diretrizes da rede de formação, tendo como fundamento os princípios da educação popular e as reflexões produzidas nessa roda de escuta, da seguinte forma:
 
- Valorização e compreensão do ser humano na sua totalidade: Considera as múltiplas dimensões da subjetividade humana, contemplativas das particularidades dos sujeitos envolvidos. Trabalha o acolhimento, a afetividade, a cultura e outros aspectos fortalecedores das identidades individuais e coletivas, e que dialoguem com as trajetórias pessoais. Questiona a prática, quando ela não contempla essa complexidade.
 
- Valorização e respeito aos diferentes saberes: Refere-se à ética, à ecologia, à economia, à sociologia e outras áreas como a cultura, as artes, a poesia, assumindo diferentes linguagens e abordagens com as especificidades dos diferentes sujeitos políticos. Implica em respeitar os conhecimentos já construídos pelos diversos sujeitos e acessar a novos conhecimentos. Respeitar os diversos saberes individuais e coletivos, considerando as diversas correntes de pensamento.

- Permanente articulação entre prática e teoria: Estabelece relação intrínseca entre prática e teoria e estimula a problematização e a fundamentação da ação. Agrega à vivência, informações historicamente sistematizadas e os novos conhecimentos construídos de modo a contribuir com a revisão de velhas práticas instituídas e garantir que a dimensão teórica seja dialeticamente levada em consideração, contribuindo assim para o aprofundamento dos saberes. Conjugação conhecimento técnico e acadêmico com o conhecimento empírico de forma dinâmica, na perspectiva de que o conhecimento não é finito e nem efêmero. Estimula interação e questionamento mútuos, e produz um novo saber, necessário para alterar a realidade que estiver sendo investigada ou enfrentada.

- Formação crítica e criativa: A formação transformadora recusa a visão única, pois dialoga com uma diversidade de pontos de vistas existentes e respeita as identidades de classe.

- Postura avaliativa e crítica permanente da ação e da prática formativa: A avaliação é considerada como parte fundamental do processo educativo; é um pressuposto para ações concretas de transformação social. Esta abordagem de educação/formação/transformação requer avaliar continuamente a prática dos diversos sujeitos, tornado possível re-elaborar a própria prática. Entre os objetos de avaliação é conveniente incluir: o desempenho dos educandos (as) e educadores (as); as várias dimensões abordadas na formação - político-ideológica e pedagógico-metodológica; os resultados e impactos alcançados tendo como pressupostos os objetivos previamente delineados.

- A pesquisa como princípio educativo: A pesquisa cumpre, enquanto caminho metodológico, o papel de reunir informações e subsídios para o desenvolvimento da formação. Educadores e educadoras devem estimular que educandos (as) estejam mobilizados para a realização da pesquisa, seja ela em seu caráter empírico (elementos do cotidiano) ou teórico (bibliográfica ou documental). A pesquisa cumpre também um papel de contribuir com o avanço da relação entre a teoria e a prática, possibilitando novos conhecimentos decorrentes dessa relação. É mais uma ferramenta para identificar potenciais e redimensionar a ação educativa.

- A construção coletiva do conhecimento: O conhecimento é construído com base no pressuposto de que não existe alguém que sabe tudo (educador/a) que transfere ou repassa ao que nada sabe (educando/a). Aprender e ensinar são indissociáveis, ensinamos na medida em que aprendemos, aprendemos na medida em que ensinamos. Os níveis diferenciados de saberes são potencializados de modo que o saber de cada um é valorizado e levado em consideração na mediação em favor da construção coletiva. A produção de novo conhecimento é permeada por informações, vivências, percepções e experiências que as pessoas trazem em seu “repertório” individual. Nesse sentido, ninguém permanece impassível diante dessa vivência coletiva, todos aprendem juntos, inclusive a desaprender aquilo que não lhes cabe mais no novo contexto de aprendizagem.

- A vivência de relações horizontais: Esse princípio está referenciado no dizer de Paulo Freire (1996) que questiona a educação bancária, onde o professor está resguardado em uma visão autoritária e no exercício do poder de forma a constranger seus educandos; sua capacidade criativa e crítica e desestimulando a curiosidade. Não há uma relação de dependência e nem de hierarquia entre os sujeitos da aprendizagem.

Para ver um pouquinho do que aconteceu na Roda do Catucá, clique aqui.

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