SERTA Pernambuco – Compondo  a Rede CulturaEduca

PEADS – Programa Educacional de Apoio ao Desenvolvimento Sustentável

SERTA - Serviço de Tecnologia Alternativa


O Serta – Serviço de Tecnologia Alternativa – nasceu da necessidade de um grupo de agricultores, técnicos e educadores, de encontrar mais tempo para aprofundar questões mais específicas de suas propriedades, tais como: o planejamento do inverno, a melhora do rebanho e a integração com o meio ambiente. Desde sua origem, teve como foco o desenvolvimento e reconhecimento da importância da agricultura familiar, criando condições para facilitar processos de apropriação de competências complexas – saber ser, saber conhecer, saber conviver e saber fazer – reunindo jovens, produtores, artistas, educadores, gestores, conselheiros e lideranças em torno dos desafios do desenvolvimento local.

Um dos seus fundadores o Sr. Abdalaziz de Moura Xavier de Moraes, 75, mais conhecido por Moura, é filósofo, teólogo, educador popular e também criador do Programa Educacional de Apoio ao Desenvolvimento Sustentável- PEADS. Teve a oportunidade de estudar teologia e filosofia no Seminário de Olinda, na Unicap, em Roma e Genebra, e desde muito cedo trilhou seu caminho, pela teologia da libertação. De volta ao Brasil, nos anos 70, encontrou sua região marcada pela ditadura e pela seca. Diante de tal situação, começou a pesquisar meios de contribuir com a população rural, e encontrou uma possibilidade na teoria de Paulo Freire e nos princípios da sustentabilidade – foi o primeiro a levar o conceito de orgânicos a agricultores nordestinos, em 1987.

A partir de 1990, ano seguinte a sua fundação, o SERTA passou a estudar mais profundamente a história da Agricultura Familiar no Brasil, chegando à conclusão que, além da AF ter exercido um papel subordinado nos diversos ciclos econômicos (da cana, do gado, do algodão e da urbanização) ainda era considerada pelos movimentos sociais sem muita perspectiva nas mudanças desejadas e sonhadas por eles. Essa conclusão levou o SERTA a fazer algumas propostas para repensar o papel da agricultura não só com aqueles autores e agentes sociais que estavam acostumados a trabalhar – Sindicato de trabalhadores rurais, comunidades eclesiais de base, associações e cooperativas de agricultores... Mas vislumbrando também novos interlocutores (governos municipais, estadual e federal, empresas, dos consumidores e clientes, dos fornecedores), sentiam a falta desse posicionamento, percebiam que só uma parcela pequena da sociedade se relacionava com a agricultura familiar.

“Diante dos resultados provenientes desse estudo, passamos a perceber nosso papel não só como animadores das comunidades, capacitadores em tecnologias alternativas, defensores do meio ambiente, inovadores no planejamento das propriedades rurais. Passamos a nos ver pensando o desenvolvimento rural”. Depoimento de Abdalaziz de Moura, fundador do SERTA.

Em 1992, o Serta produziu um segundo estudo: sugestões para um plano diretor de desenvolvimento rural – desdobramento do estudo do ano anterior: a pequena produção no nordeste, a eterna marginal. Como resultado teve de repensar também os modelos de desenvolvimento da comunidade, do município, do estado e do país. Foi um salto do micro para o macro, da tecnologia para a política, do projeto para o programa, da propriedade para o país, do privado para o público.

“Passamos a nos ver não apenas como construtores de conhecimentos técnicos, intervindo sobre as propriedades, como também, agindo na política, modificando cultura. Entre os novos interlocutores que escolhemos para nos ajudar na tarefa de interferir para conquistar mudança de cultura, de paradigma, de jeito de governar e se desenvolver, estava à escola pública municipal. Passamos a nos interessar pelo que a escola ensinava aos alunos do meio rural, pelos valores que ela conseguia incutir nas crianças e adolescentes, pelos modelos que inspiravam, começamos a pesquisar o que os estudantes do meio rural aprendiam nas escolas, o que eles levavam da vida familiar para as leituras, os textos, os cálculos e o que traziam do seu aprendizado que pudesse aplicar ao trabalho e a vida familiar, a propriedade”, complementou Moura.

Quanto mais profundamente o SERTA mergulhava nos estudos constatava que era preciso chegar até as crianças, adolescentes e jovens que estavam na educação escolar formal e pública, na contramão da Educação Popular, defendendo valores diferentes, até opostos e mesmo antagônicos. “Descobrimos que a escola preparava o jovem e a jovem do campo, para abandonar o campo, vendendo uma ideia de que só a cidade ou outras profissões fossem capazes de fazer as pessoas felizes. A escola não construía a identidade do filho do agricultor com autoestima. Estigmatizava a origem do pai como se fosse castigo e fatalidade. Argumentava com frequência “estuda menino, se não tu vais terminar feito teu pai, no cabo da enxada!”Em troca do código escrito, a escola destruía no inconsciente do aluno a sua identidade, sacralizava a cidade e satanizava a agricultura como o lugar da pobreza, do atraso, do subdesenvolvimento” partilhou Moura.

O mérito do SERTA foi procurar então, uma escola que valorizasse o campo, a identidade dos agricultores, a história de vida, o meio ambiente, os seus desafios, e suas oportunidades que relacionasse os saberes escolares, técnicos, acadêmicos com os saberes populares que os pais e as mães dominam que em vez de desmerecer a agricultura, entendesse as suas raízes e contribuísse para que os agricultores e seus filhos superassem o estigma de que “são matutos, ignorantes, pobrezinhos e coitadinhos. Uma escola desta não existia e no entanto, sem uma escola desta não se alcançaria o verdadeiro desenvolvimento do campo.

Diante de tudo isso, o SERTA fez uma aposta. “Se houver interação entre a Educação Popular e a Educação Formal, construiremos a escola que queremos”. Foi então que o SERTA passou a criar metodologias que fizesse a interação entre a EP e a EF. O resultado foi à criação de uma metodologia própria para a Educação do Campo, que hoje é sistematizada, validada e referenciada para municípios, estados e união.

Metodologia (PEADS - Programa Educacional de Apoio ao Desenvolvimento Sustentável)

Os princípios, que constituem a base filosófica do Serta, são inspirados em vários autores e vêm sendo reelaborados a partir da prática dos seus educadores/as e técnicos/as. As bases do PEADS vêm sendo desenvolvidas desde 1994 e resultam de reflexões e práticas em escolas, programas assistenciais, formação de produtores, educadores e jovens. Alguns dos componentes do Peads foram, inclusive, incorporados ao documento Diretrizes Operacionais para Educação do Campo, elaborado pelo Conselho Nacional de Educação e homologado pelo Ministério da Educação (MEC).

Em todo Brasil, o Serta se tornou referência na proposição e implantação das diretrizes curriculares para as escolas do campo. O Peads trabalha simultaneamente o ensino, a pesquisa e a extensão como instrumentos de inovação, transformação e inclusão social. Na prática, o Peads se diferencia na medida em que elege: a escola e o aluno como produtores de conhecimento sobre a realidade, em apoio aos processos de desenvolvimento em curso; o adolescente como protagonista e liderança capaz de modificar o seu entorno e as circunstâncias em que vive; a família, como parceria pedagógica, fonte de soluções e não de problemas.

É uma metodologia que transforma os sujeitos sociais em co-autores e co-executores do processo de desenvolvimento. Está aberta ao diálogo com outras metodologias especialmente o Protagonismo Juvenil e a mobilização social e se estrutura em quatro etapas: pesquisa, análise e desdobramento, devolução para a ação, e avaliação.

Inspirou muitas reflexões e sistematizações no âmbito da valorização da educação popular, educação do campo, juventude rural, cultura e agroecologia, a exemplo, do texto: o papel da arte na educação escolar e no desenvolvimento sustentável, do autor Abdalaziz de Moura. Essa sistematização na sua primeira versão foi inspirada em uma ação de jovens da região da Bacia do Rio Goitá, em Pernambuco. Eles fizeram um inventário dos artistas locais, da cultura regional e fizeram depois a apresentação, para a comunidade, dos resultados. A partir desse diagnóstico, organizaram, com os envolvidos, um plano de intervenções no campo da arte e da cultura, que ainda hoje gera frutos. Este texto teve o intuito de aprofundar o novo olhar que esses jovens passaram a ter sobre a realidade do seu entorno e qual o papel que a arte tem na educação escolar e no desenvolvimento.

O mérito maior do Peads e do Serta é ter conseguido desenvolver um Programa Educacional que interage com a Escola Formal, com o sistema regular de ensino e, ao mesmo tempo, integra, numa síntese, as contribuições da Educação Popular e das experiências complementares à escola.

Autores: Abdalaziz de Moura e Bruna Lima

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