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Imagens do Fórum Educação e Cultura
Imagens do Fórum Educação e Cultura


IV FÓRUM DE EDUCAÇÃO INTEGRAL E EDUCAÇÃO POPULAR: ARTICULANDO COMUNIDADES EDUCATIVAS

O espaço do Fórum de Educação e Cultura reuniu 80 pessoas com a finalidade de pensar a junção de forças e bandeiras para o fortalecimento das redes de cultura e educação e como caminho de construção de proposições para uma política pública de educação integral. E como as práticas educativas dos diversos grupos presentes neste espaço de Fórum podem promover uma cultura emancipatória?

Bem, a Educação Popular foi a fonte inspiradora de todo o processo vivido no encontro formativo realizado em Caruaru, bem como para o desafio de propor uma identidade para uma comunidade educativa. Essa temática fez surgir a necessidade de fazer sínteses e interações dos debates e provocou que as realidades dos participantes do Fórum se manifestassem na sua essência. Também propiciou se pensar em saídas e pistas de mudanças de realidades; possibilitou ainda criar outros referenciais sociais organizativos para a Cultura e a Educação nos territórios, pensando o universal como particular e o local como global. E essas são dimensões de íntimas conexões e interações.

A síntese do encontro, que apresenta exemplos disto, é uma escrita coletiva e colaborativa, feita a diversas mãos e nos diversos olhares dos protagonistas do Fórum. Então, a seguir, trazemos a sistematização de pontos principais dos debates realizados no Fórum, feita a partir dos 03 (três) eixos principais do encontro.

Tema do Fórum: Educação Integral e Educação Popular -Articulando Comunidades Educativas

Eixo 1 do Fórum: Trajetórias, Identidades, Memórias Coletivas

A mística vivida no primeiro dia do Fórum, pela manhã, foi permeada pela diversidade de saberes de um povo que busca em sua ancestralidade (re)conhecer as potencialidades da sua cultura como forma de autoafirmação das identidades. Ainda evidenciou lutas e resistência de diversos povos, o que trouxe aos participantes algumas instigações:

 É necessário restaurar uma linguagem que possa se comunicar com o sagrado, e, por isso, que tenha sentido de vida e de aprendizagem cotidiana;

 Existem lugares do aprender, que se fazem no chão dos territórios;

 A casa é o nosso território, lugar onde habitamos, imersos nesse lugar aprendemos tudo que precisamos saber, mas a casa pode ser nosso corpo, nossas tradições;

 A educação significa construir com o que se aprende.

Nessa primeira instigação foram se delineando falares e dicções sobre o que é a escola. Para o povo Kapinawá, a escola é sentida enquanto comunidade, sendo uma forma comum de pertencimento e de socialização dos conhecimentos. Para outras tradições, a escola se faz no chão da comunidade onde se vive. Nesse sentido, por ela se pode entender que somos muitas racionalidades, com tramas que se cruzam, estéticas que convergem e divergem de forma plural.

Na grande roda de iniciação e apresentação dos participantes do Fórum, alguns apontamentos puderam ser focados na perspectiva da educação popular, das experiências de vida e sobre os lugares/modos/maneiras de realizar a aprendizagem. Este momento proporcionou o encontro e o reencontro com a ancestralidade dos participantes do encontro, com a diversidade de saberes que permite a todos reconhecer a vida que pulsa nos saberes populares, o que permitiu aos participantes transcender e se fortalecerem na resistência, sendo este um invólucro de sonhos.

Foi vivenciada uma roda composta por várias experiências de vida. Nela, compreendeu-se muitos modos de ser e estar com/na educação. Nessa perspectiva, os diálogos giraram em torno de uma polaridade, na perspectiva de que não é possível se ter uma única resposta para o que se quer enquanto sonhos, vínculos. E se não se sabe ou se pode escrever/desenhar uma única resposta para essas questões, precisa-se descobrir para onde pode-se convergir. Assim, resolver descobrir, ouvir o que está ao lado com uma gama de saberes e experiências é um passo a ser assumido.

Com essa disposição para o debate, várias foram as questões trazidas para reflexão:

• Como herdeira de uma tradição de luta, a academia do saber é a integração de saberes;

• Como líder comunitária, a luta se faz para o bem comum, por meio da cultura;

• A educação, na perspectiva do Poder Público, não valoriza a cultura dos sem terra e a luta é por levar esse reconhecimento para quem está na escola;

• Para uma professora que atua por 36 anos, a luta é pelo resgate da memória/identidade que está dentro de cada um;

• Para o povo Kapinawá aquilo que podemos aprender deveria estar vinculada à cultura do vizinhar e o conhecimento é ensinado na perspectiva da experiência.

Portanto, seria preciso descolonizar a história, retrabalhar os conteúdos na perspectiva da história de seus povos, já que os conteúdos prontos são vazios de significados. Então, foi socializado que na comunidade kapinawá, a história é contada por “nós e a gente sabe como fazer”. De um modo geral, os diálogos sobre educação integral e popular vieram à tona na perspectiva da luta e para onde se pode convergir, a partir das perguntas: O que ameaça as nossas práticas educativas? O que se conecta às demais questões na medida em que vela os sonhos, os desejos? O que cada um traz dentro de si?

Segundo os participantes do encontro, o que ameaça também desvela e é preciso olhar com atenção: a) para a formação integral; b) para o outro; c) por uma sensibilidade que desfaça o distanciamento com os saberes vividos em/pela comunidade. E segundo os participantes do encontro ainda, o que ameaça as práticas educativas e culturais está: no poder público; no assistencialismo; no sistema político; na falta de sensibilidade; na atitude das pessoas; nas avaliações externas; na mercantilização da educação; na privatização do ensino público.

No partilhar na grande roda, o mestre TC proporcionou a todos a vivência com a semente de um Baobá de 700 anos. Cantando uma canção inspirada em vivências de comunidades que têm na árvore do Baobá a referência a ancestralidade, viu-se que é possível caminhar, como faz o pássaro Sankofa (que é identificado pela seguinte imagem: ), cujo mito indica que devemos retornar sempre ao lugar de onde viemos, não perdendo essa conexão, pois não importa “quão longe estejamos”, poderemos sempre retornar pra casa. E esse é o “símbolo da importância de aprender com o passado”.

Na grande roda, cada grupo apresentou a sistematização sobre o que se compartilhou daquilo que ameaça as práticas educativas: a ameaça está na perda da identidade e na desterritorialização/burocratização/institucionalização dos processos educativos; na perda da raiz/enraizamento/memória por meio da operacionalização do saber; pelo tensionamento de que as práticas precisam mesmo ser ameaçadas para que elas possam ser reavaliadas a partir da atuação; por meio de um processo de desnaturalização sobre o que sabemos; a falta de conexão dentro da escola com o território.

Destaca-se que o tema central dos diálogos foi a formação, que deve passar por todos os coletivos, como forma de investimento para uma educação libertária, seja na roda de capoeira, na musicalidade dos mestres etc. E para que se construa uma educação libertadora é preciso compreender os saberes tradicionais dos povos tradicionais, que estão fora da roda das políticas públicas. Só assim poderá haver produção de conhecimento, a partir de uma relação com as várias matrizes.

Foi ainda ponderado que, como ameaça a esse tipo de formação, tem-se: o avanço do projeto neoliberal que afronta a prática da educação popular por meio da privatização e dos movimentos que vinculam a educação a uma prática de privatização; a desconstrução da luta da classe trabalhadora; a falta de perspectiva política, na medida de uma construção de diálogos que promovam convergências; e a criminalização da luta popular.

Então, o grande desafio está em como articular os territórios a partir de um olhar que acolha as diferentes identidades em prol de um bem comum. Para isso, viu-se no encontro que é central uma articulação em rede, que também aconteça por meio de novas tecnologias, uma conquista que não se pode perder de foco. E com essa articulação será possível tornar a ação de resistência um engajamento com sentido. Mas uma ameaça a isso são as ações antipopulares que engessam os currículos e a educação, que constroem políticas de governo tecnicistas e que mercantilizam a educação. Outra ameaça é a lógica mercantilista, que atua por meio das individualidades que transforma tudo em mercadorias. Ainda como empecilho para a rede tem-se a realização de formações continuadas que, por meio de práticas desfocadas, não alcançam o outro; a violação dos direitos através das várias violências sobre o corpo e a corporalidade; e a manipulação da mídia que injeta um olhar formatado, que engessa e homogeneíza.

Eixo 2 do Fórum: Cultura e Educação: Sentidos e Valores

No meio de tantas pessoas, fatos e experiências interligadas pela vida, a cultura funciona como um inconsciente coletivo e está em contínuo movimento, tornando a estética parte da existência das pessoas, desenvolvendo em nelas o gosto de viver e pelo desenvolver da beleza.

O povo Kapinawá propiciou aos participantes do Fórum a vivência de uma roda o samba de coco. E, com isso, construiu um momento de união e vivência coletiva do sagrado indígena. O mestre Joab contribuiu com a vivência a “Letra do Corpo”, mostrando que o corpo (no sujeito) é protagonista e que, na medida em que sentimos e entendemos nosso corpo, é possível entendermos o do outro. Por meio da partilha da ginga, da roda, pode-se sentir a cultura no corpo. Assim, essa experiência mostrou de maneira muito intensa que as práticas educativas podem ser pensadas a partir do corpo, da cultura e da arte, para que se consiga visualizar e convergir com o outro. Munidos dessas sensações, os participantes compartilharam aquilo que foi desenhado/escrito por eles sobre educação integral e educação popular. E, em meio a tantas questões colocadas, foi possível dizer sobre uma educação popular integral e uma educação integral popular, na medida da cultura vivida, da educação com a comunidade e da sociabilização dos saberes. Porque “conhecimento só é conhecimento quando é compartilhado, quando não é compartilhado é egoísmo” (Poeta Mata Viva).

Para a continuação dos debates, foi feita uma pergunta mobilizadora: “Nossas práticas educativas promovem uma cultura emancipatória? De que forma? E várias questões surgiram no debate:

• Pedagogia do aprender fazendo - trabalhar o saber como prática;

• Não existência de hierarquia entre o que ensina e o que aprende;

• Valorização do debate;

• Educação integral = sujeitos + territórios + espaços;

• O grande desafio da instituição é abrir o currículo às práticas populares;

• Dicotomia: educação popular X educação escolar - o que se precisa é construir um diálogo entre o conhecimento tradicional da comunidade X conhecimento escolar;

• Construção de laços com comunidade e território;

• A escola precisa ser concebida/construída pelos sujeitos em seus lugares;

• O território é o princípio da nossa existência;

• A minha comunidade e o meu território me ajudam a me definir como sujeito;

• Práticas dialógicas: construção “com” e não “para”. Trabalhar o currículo de acordo com a realidade do aluno (seu território e sua família);

• Práticas que respeitam a igualdade de gênero;

• Organização e mobilização dos sujeitos;

• Valorização dos diversos espaços de aprendizagem;

• Cultura da (r)existência;

• Partilha (gira) de saberes;

• Micropolítica - trabalhar para as comunidades e não para o todo.

Diante dessas questões, os participantes foram fazendo novas perguntas: Existe a possibilidade de relacionar os saberes acadêmicos, escolares com os saberes populares? Haveria a chance de explicitar os valores no currículo escolar? Muitas perguntas feitas tinha uma luz na Educação Popular e a indicação de que precisa-se construir outros paradigmas e novos caminhos.

O Mestre TC, fundador da Casa de Cultura Tainã e da Rede Mocambos (Campinas –SP), trouxe uma reflexão sobre as sementes, suas funções, suas diversidades, e falou, em especial, sobre a semente do Baobá. O mestre usou essa vivência para falar sobre articulação e organização, fazendo os participantes refletirem sobre:

a) O que nos faz avançar? E saiu como respostas: o fortalecimento das nossas identidades; a abertura ao novo juntos; as práticas educativas da vida dos sujeitos; a espontaneidade no fazer educação; a pedagogia do aprender fazendo; a luta unindo forças; a formação continuada e articulada; o saber sobre quem sou eu; a articulação em rede; a integração dos sujeitos, territórios e instituições; o deslocamento de pessoas e estruturas; a resistência em redes; as práticas que unificam os sujeitos; o compartilhamento de práticas; a construção da escola a partir dos sujeitos; e o reconhecimento de si e do outro.

b) O que fazer e como fazer? E saiu como respostas: formação de rede organizativa e de atividades; a promoção de intercâmbios; a criação de uma escola de formação; a promoção de percurso formativo com troca de experiências entre a educação formal e a educação popular; a criação de uma rede de educação e cultura; a resignificação do comitê de educação integral; a articulação dos territórios a partir das práticas locais; o mapeamento de práticas locais; a socialização em rede; o desenvolvimento de trabalhos colaborativos; o fomento de registros a partir de recursos tecnológicos; a resistência em rede; a ampliação de contatos; a garantia de processos contínuos; a promoção de diálogos.

Eixo 3 do Fórum: Comunidade Educativa: Articulação e Organização

Debatendo sobre o terceiro eixo do Fórum, os participantes foram estimulados a perceber a sutil e decisiva diferença entre a intenção e o gesto, que é o grande desafio a que todos estão submetidos. Assim, é importante transformar a intencionalidade em ação; conquistar corações e mentes para novas ideias e, sobretudo, para as novas práticas; e consolidar os conceitos a partir de experiência vivida, por si e pelo outro, sabendo que há muito por fazer e que não se faz só.

Foi neste contexto que o Fórum foi vivido, com especial força e capacidade de convergência de ideias, intenções e práticas. Assim, buscou-se o empoderamento dos territórios e dos sujeitos, na busca de sua autonomia que dialoga com todo território e que está fincada na capacidade que todos têm de contribuir para construção de uma educação emancipatória.

No espírito de comunhão dos saberes populares, a chamada para iniciar os trabalhos era feita de forma festiva pelo berimbau: circulando nos espaços de vivência e trazendo os participantes à roda, propiciando o aquecimento com palmas, cantos, capoeira.

E, reanimados pelas vivências culturais, os participantes tinham a certeza de que, mesmo sendo minoria (no tocante à voz nas decisões das esferas deliberativas) eram muitos e podiam se organizar como um formigueiro. Assim, podiam começar a construir um espaço reivindicativo para co-existir a Educação Popular nos espaços escolares. Nesse sentido, a educação seria uma forma de aprendizado integralizador da essência humana entre corpo, mente e espírito, na apreensão do ser e do existir.

Após ter participado de todas as vivências e reflexões relatadas, os participantes do encontro foram convidados a fazer uma construção coletiva dos encaminhamentos do encontro até o momento. E, em um único grupo foram discutidos blocos de proposições, discutidas e alinhadas em um consenso sobre como transformar as experiências, vivências e ideias compartilhadas em uma proposta de ação coletiva com desdobramentos nos territórios de origem dos participantes. Ainda foram convocados a se comprometerem com uma mobilização articulada com todos os presentes. A seguir, registramos a síntese das proposições para vivência de uma

Rede Mobilizadora e Articuladora para a Educação e a Cultura:

Eixos sínteses:

(I) Intercâmbio-Articulação

Mapear e articular artistas locais nos territórios;

Socializar práticas culturais;

Mapear e conhecer as culturas tradicionais;

Troca de saberes;

Mapear potencialidades dos territórios;

Mapear iniciativas culturais e contatos; e

Promover trocas de experiências.

(II) Comunicação / Tecnologias sociais

Garantir formas de comunicação entre pessoas e coletivos;

Promover trocas de experiências;

Buscar e conhecer redes consolidadas;

Registrar experiências;

Culturaeduca.cc;

(III) Formação

Escola itinerante;

Escola de formação de educadores populares;

Formação continuada

Metodologias - inventários participativos e ou percursos formativos

(IV) Organização

Que tipo de rede?

Como se organizar?

Quem participa?

Como se sustenta?

Autores: Kely Alves, Carla Dozzi, Vanya Rosevanya, Nivaldo Leo, Glauce Gouveia e Equipe de Sistematização do Fórum.


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